Seniornautas
por Andreia Pereira. Fotografia de Ricardo Meireles

Desengane-se quem pensa que o espaço virtual está reservado apenas aos jovens. A internet tem conquistado, todos os anos, cada vez mais adeptos portugueses acima dos 65 anos. Uns usam-na para combater a infoexclusão, outros para poderem comunicar com os familiares que residem no estrangeiro. Os «seniornautas» do século XXI marcam presença online de diversas maneiras: através de e-mail, redes sociais ou blogues. O que começa com um simples clique acaba com uma janela de oportunidades que se abre para o admirável mundo das tecnologias de informação.
 

Luís Gaspar foi apanhado na rede em 1997, ainda a internet tinha pouca expressão em Portugal. Mas não teve medo do desconhecido e, por auto-recriação, decidiu navegar num mundo que até ali era uma incógnita. Dada a imensa curiosidade, aprendeu, como autodidacta, a mexer na internet e a explorar as suas potencialidades. E assim nasceu o sítio http://www.truca.pt/ que, em Setembro deste ano, completa 12 anos de existência. Para além desta página, o locutor publicitário, com 73 anos, «alimenta» e actualiza o audioblogue Estúdio Raposa (http://www.estudioraposa.com/), criado em 2005. Este formato de blogue foi inventado nos Estados Unidos, mas Luís Gaspar achou que a ideia teria cabimento dentro da blogosfera portuguesa.
«O audioblogue é uma espécie de rádio online, um espaço onde, essencialmente, só existe lugar para o som», esclarece. Todos os trechos sonoros, publicados no blogue, são integralmente escritos, gravados e montados por Luís Gaspar no estúdio real que tem em sua casa. Neste sítio da internet, o autor tem já cerca de quinhentos programas online, praticamente todos dedicados à literatura em língua portuguesa, e «milhares de declamações».
Quando se iniciou nestas andanças, a aventura online até foi pacífica, admite o locutor publicitário, que ainda se encontra profissionalmente activo. «Na prática, era escrever um texto e ele aparecia milagrosamente na internet.» As dificuldades de manusear as ferramentas da internet, nomeadamente na gestão do blogue, vieram mais tarde. «É um mundo com dois sentidos paralelos, mas simultaneamente opostos, porque a evolução é rápida. O utilizador comum tem à sua disposição programas que ajudam a publicar um texto. Mas, para mexer lá dentro e construir um blogue ao estilo do Estúdio Raposa, tive de recorrer a ajuda especializada para a manipulação gráfica, porque não era capaz de entrar no universo complicado do HTML.»
A sua presença na esfera virtual não se reduz aos blogues. Está inscrito em redes sociais (Hi5 e Facebook) e participa, ainda, no Second Life, um mundo virtual que permite «fazer amigos ou assistir a eventos» em tempo real. E como nasceu a ideia de ingressar na comunidade do Second Life? «Um dia lembrei-me de criar um estúdio virtual dentro desta plataforma. Quem entrasse na casinha onde estava sediado o estúdio podia ouvir as poesias que cito e os textos que leio no audioblogue.»

Terceira vaga?
Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2008, 5,2 por cento da população portuguesa com mais de 65 anos utilizou a internet. Comparativamente a 2007, registou-se um aumento de 1,2 por cento no número de utilizadores dentro desta faixa etária. Mas a percentagem de cibernautas seniores ainda é relativamente baixa, quando se faz o paralelismo com o escalão dos 55 aos 64 anos, cuja taxa se situa nos 18,7 por cento. «As razões são inúmeras, desde logo porque os idosos de hoje não cresceram com a tecnologia e, portanto, não a têm «domesticada», defende Maria João Carrelhas, autora do estudo «Terceira Idade e Internet».
Esta tese é defendida por Joana Lopes, 70 anos, criadora do blogue Entre as Brumas da Memória e autora de um livro com título homónimo, publicado em 2007. A ex-gestora de uma empresa de informática está actualmente reformada, mas admite que, se não tivesse tido experiência com computadores durante 25 anos, talvez manifestasse alguns receios em usar a internet: «Quem chegou tarde à informática tem medo da tecnologia. Há uma barreira psicológica.»
O caso de Joana Lopes é a antítese do que, habitualmente, se passa com os utilizadores acima dos 65 anos: passa horas ligada à internet e até já teve oportunidade de conhecer «na vida real» alguns dos bloggers e visitantes da sua página http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/. Mas esta cibernauta não usa a internet apenas para actualizar o blogue ou trocar e-mails: está inscrita no Facebook, no Twitter e faz ainda algumas compras online, nomeadamente livros estrangeiros ou nacionais, que não consegue encontrar nos locais habituais.
A reformada e doutorada em Filosofia não se conforma com a ideia de ser uma mera receptora de dados. Na sua opinião, o blogue e as redes sociais permitem uma troca de experiências entre gerações. «Um dos contributos das pessoas mais velhas na internet é precisamente o de poderem transmitir informações que os mais novos não viveram.»
Para a comunicóloga Maria João Carrelhas, não se pode abordar a temática da terceira idade apenas na perspectiva do que se pode dar: «Tem de se pensar na perda social de deitar fora o conhecimento e as experiências preciosas. E a internet facilita e incentiva a construção de redes sociais que têm a capacidade de libertar os idosos dos “becos” a que são socialmente remetidos», esclarece.

Alargar os horizontes
Num mundo cada vez mais dominado pelas tecnologias de informação, os idosos vão conquistando, gradualmente, o seu lugar online. Alguns encolhem-se perante o bicho-de-sete-cabeças que é o computador. Mas muitos arregaçam as mangas e tentam provar que, independentemente da idade, a internet quando nasce é para todos. Há, contudo, alguns obstáculos à generalização das novas tecnologias por parte da população com mais de 65 anos, apesar das iniciativas que grassam em Portugal.
«Em primeiro lugar, observa-se uma certa resistência à aprendizagem desta “ferramenta” e alguma teimosia em compreender “este mundo” [digital]», considera Maria João Carrelhas. Depois, existe a componente financeira, que afecta sobretudo os «idosos menos letrados». Como não existe nenhum programa de financiamento de computadores para estes escalões etários, o fraco poder de compra entrava a aquisição de material informático com ligação à internet.
Se a barreira for a aprendizagem, os idosos que tenham vontade de conhecer o ciberespaço podem recorrer aos programas de «Introdução à internet» promovidos pelas universidades seniores. Foi o caso de Raul Campos, 67 anos, aluno de um curso de Informática da Universidade Sénior da Maia, perto do Porto. O fascínio pela informática surgiu ainda nos tempos em que trabalhava como inspector de vendas numa empresa nacional. Mas, depois da aposentação, decidiu que estava na hora de aprender a mexer com o computador.
É um utilizador regular e autónomo, mas não passa muito mais do que duas a três horas por dia em frente ao computador. E o uso que faz da internet é, fundamentalmente, para receber e enviar e-mails e fazer pesquisas. Mesmo assim, sente que a informática mudou o seu quotidiano: «A internet permite aceder a informação de um modo mais instantâneo que de outra maneira não seria possível.»
Raul Campos sente-se orgulhoso por ter aberto esta janela para o mundo. Agora, pode adquirir uma fonte inesgotável de informação, sem sair de casa, e engrossar os seus «conhecimentos». Para este aluno da Universidade Sénior, a formação na área da internet foi um passo para a inclusão digital: «Os cursos são adaptados à nossa idade, o que nos motiva mais a aprender.»
Fernando Bernardes, embora não seja aluno da Universidade Sénior, é um utilizador assíduo da internet. Aprendeu a manusear as ferramentas online há cerca de 12 anos, com a ajuda de colegas. E, desde então, este reformado utiliza o ciberespaço para alargar os seus conhecimentos, fazer compras online e movimentar as contas do banco. A entrevista foi, inclusivamente, enviada por e-mail, o qual criou sozinho, «seguindo as instruções do servidor».
A «quantidade», a rapidez e a «facilidade» com que encontra a informação dentro de um mundo colossal foi o que mais o aliciou a experimentar a internet. Mas não só: hoje, sente-se «mais autónomo pelo facto de poder tratar de muitos assuntos» sem ter de se deslocar. E, embora tenha tido necessidade de aprender uma nova linguagem, sente-se «minimamente integrado nas novas tecnologias».

Sem fronteiras
No ciberespaço, as fronteiras físicas esvaem-se. A comunicação é instantânea e, mesmo a quilómetros de distância, é possível manter contacto com familiares ou amigos. Rosa Oliveira, 65 anos, inscreveu-se no curso de Informática da Universidade Sénior para aprender a lidar com o computador e, assim, poder falar com a filha e a neta, que residem no Japão.
A vontade de estar mais perto dos entes queridos falou mais alto do que a curiosidade pelas novas tecnologias. «Comecei do zero, porque, apesar de ter dois computadores em casa, nunca tive grande interesse em aprender antes de a minha filha ir morar para o estrangeiro», conta. A comunicação com a família, que está fora, é feita exclusivamente pela internet, através do Skype.
O contacto é geralmente feito pelo marido, de 66 anos, que está mais familiarizado com as novas tecnologias, porque fez uma formação intensiva de um ano. Mas Rosa Oliveira está sempre por perto, na tentativa de perceber como funciona, dado que ainda não se sente perfeitamente à vontade com este programa. Em todo o caso, a internet trouxe-lhe a possibilidade de, mesmo à distância, acompanhar o crescimento da neta, de 13 anos, através da web camera. «Foi uma lufada de ar fresco», confessa.
Para Rosa Oliveira, reformada e ex-enfermeira, a internet deu-lhe a possibilidade de viajar, ainda que virtualmente, sem sair de casa. Porém, faz muitas pesquisas sobre destinos que pretende visitar fisicamente. «Este ano, já procurei informação sobre o local onde vou passar férias.» Apesar de não se sentir muito atraída por computadores, porque não tem «temperamento» para actividades mais paradas, não esconde a satisfação de estar a descobrir a informática ao seu ritmo: «Aprendo devagarinho, mas o ensino é personalizado.»
Apesar de preferir actividades que impliquem mais movimento, como a ginástica e o desporto em geral, até equaciona a possibilidade de, aos poucos, vir a interessar-se mais pela internet, já que elogia o método de ensino do professor de informática.

«Ginástica» mental
Joana Lopes já perdeu as contas às horas que passa diante do computador. «Quando estou em casa, deixo a internet ligada e vou fazendo outras coisas, nomeadamente pôr a leitura em dia. Mas, nos intervalos, aproveito para espreitar no ciberespaço.» A internauta confessa que, pelo facto de estar responsável pela manutenção de um blogue (Entre as Brumas da Memória), se sente tentada a procurar mais e mais informação de interesse para os seus leitores. «É uma actividade intelectual importante.»
Aliás, explica Fausto Amaro, director da pós-graduação em Gerontologia do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa (ISCSP), a internet pode desempenhar um papel crucial na manutenção da actividade cognitiva em qualquer idade. Ao «expandirem a curiosidade e o interesse pela informação», os cibernautas alcançam «um maior desenvolvimento pessoal». Mas, paralelamente, a internet pode funcionar como um motor de «integração social», principalmente no caso das pessoas acima dos 65 anos, que nasceram numa época em que as novas tecnologias faziam parte do imaginário.
«A filosofia do envelhecimento activo encontra na internet um grande aliado», fundamenta o sociólogo. E isto decorre do facto de os especialistas em Gerontologia admitirem que uma «actividade cognitiva intensa» contribui para o «conceito de formação ao longo da vida». Maria João Carrelhas cita, a este propósito, o caso de um aluno sénior que, apesar da formação académica superior, se sentia «novamente analfabeto» perante os netos. E esta foi a motivação principal para se inscrever na disciplina de Introdução à Informática de uma universidade sénior.
José Inácio, 61 anos, também não quis perder o comboio das novas tecnologias e inscreveu-se num curso de Informática de uma universidade sénior. Já dominava alguns programas de computador, mas, mesmo assim, decidiu manter-se actualizado, porque o saber não ocupa lugar. «Como gosto, quis aprender mais. Há sempre coisas novas que desconhecemos e outras de que já nos esquecemos. E, por esta razão, é sempre útil.»

Uma janela para o mundo
A internet inaugurou a possibilidade de os seniores descobrirem novas funcionalidades com a sua utilização. «As pessoas idosas, condicionadas por situações de dependência e com dificuldades de mobilidade, encontram na internet uma forma de autonomia, nomeadamente nas compras de supermercado que podem fazer online», explica Fausto Amaro.
Mas o mundo de opções com a internet é praticamente inesgotável. Tudo depende da criatividade. Maria João Carrelhas lembra o caso de um cidadão estrangeiro, de 68 anos, que aproveitou a internet para auferir um rendimento extra-reforma. «O valor mensal que tirava era igual ao da sua pensão, através de um negócio montado no Second Life – um mundo tridimensional.»
A comunicóloga lamenta que «a consciencialização geral das potencialidades da internet seja baixa», razão pela qual a terceira idade ainda encara com «cepticismo o papel facilitador da rede». Mas talvez «os futuros anciãos e reformados, mais habituados ao uso das novas tecnologias, possam reconhecer um conjunto de soluções para a ampliação da sua vida activa» depois da reforma. «A nova terceira idade que se avizinha encerra em si características que podem ser utilizadas não só no combate ao isolamento e envelhecimento psicológico, mas possíveis respostas a problemas de degradação do sistema de segurança social», esclarece a comunicóloga.
Na rede, os «seniornautas» encontram algum reconhecimento por parte de terceiros. O audioblogue de Luís Gaspar, ouvido em mais de setenta países, é usado como material didáctico em escolas de ensino de Português. «A internet surge, assim, como um veículo ideal, não só pela construção de novos serviços [produzidos pelos seniores], como pela estruturação de novas atitudes, de trabalho ou empresariais», adianta Maria João Carrelhas.

Tecnofóbicos: sim ou não?
Um estudo elaborado por Fausto Amaro e Bárbara Neves, que incidiu sobre uma amostra representativa de quinhentos indivíduos com idades superiores a 65 anos, residentes na cidade de Lisboa, mostrou haver algumas diferenças de género no uso das novas tecnologias. Cerca de oito por cento das mulheres e 12 por cento dos homens afirmaram usar a internet. O estudo procurou conhecer, ainda, as motivações dos seniores que usam a internet e verificou que, em ambos os sexos, a procura de informação e acesso ao e-mail estavam entre as principais razões apontadas.
«Este inquérito [realizado presencialmente] demonstrou que mesmo os não utilizadores não são tecnofóbicos, como muitas vezes se pensa das pessoas mais velhas, uma vez que 66 por cento das mulheres e 72 por cento dos homens inquiridos consideraram a internet como muito importante para o desenvolvimento do pais», revela Fausto Amaro. Um pouco por todo o território português, multiplicam-se as iniciativas de combate à infoexclusão. A Rede de Universidades Seniores (RUTIS) disponibiliza aulas de Informática aos seus alunos. Segundo as estatísticas fornecidas por Luís Jacob, presidente da RUTIS, setenta por cento dos alunos estão ou já estiveram inscritos em aulas de internet.
Mas existem outras iniciativas, promovidas localmente, que visam dar formação inicial aos seniores. O projecto Avós n@ Net, desenvolvido pela Câmara Municipal de Cascais, tem promovido, desde 2005, várias acções de formação para munícipes com idades superiores a 65 anos. Um projecto desenvolvido no âmbito do programa Inovinter (Centro de Formação e Inovação Tecnológica) também disponibiliza acções de formação gratuitas na área da internet para todos os agricultores com idades compreendidas entre os 50 e os 65 anos, que se encontrem na vida activa.